Por que fotografar a Torre Eiffel à noite pode ser ilegal? Clarice Fernandes analisa autoria, domínio público e os limites entre liberdade de panorama e exploração comercial.
A Torre Eiffel e Direitos Autorais
Concluída em 31 de março de 1889, em tempo recorde — 2 anos, 2 meses e 5 dias —, a Torre Eiffel deveria ser demolida apenas 20 anos após sua inauguração. Gustave Eiffel, consciente da ameaça, soube usar a criatividade para salvar sua obra: cedeu o espaço para experimentos científicos e, sobretudo, ofereceu a estrutura como suporte para uma antena de transmissão sem fio, tornando-a estrategicamente indispensável. O que era provisório tornou-se eterno.
A Torre não foi recebida com unanimidade. Artistas, escritores e intelectuais parisienses protestaram ferozmente contra o projeto, chamando-a de "esqueleto de ferro" e "feia mancha" na paisagem da cidade. O próprio Guy de Maupassant dizia almoçar diariamente no restaurante da Torre — o único lugar de Paris de onde não era possível vê-la. Com o tempo, claro, a história deu razão a Eiffel.
O design da Torre Eiffel e seus direitos autorais pertenciam originalmente a Gustave Eiffel. Com sua morte, em 1923, iniciou-se a contagem regressiva legal: após 70 anos, os direitos caíram em domínio público. Isso ocorreu em 1993 — o que explica a abundância de souvenires, miniaturas e réplicas vendidas livremente em todo o mundo, das chaverinhos dos camelôs parisienses à icônica torre de Las Vegas. Fotografar, reproduzir ou comercializar a imagem da Torre durante o dia é, portanto, completamente livre.
Mas há um detalhe que surpreende: fotografar a Torre Eiffel à noite pode ser ilegal. As luzes que iluminam o monumento foram instaladas apenas em 1985 e são juridicamente consideradas uma obra artística autônoma, protegida por direito autoral. Assim, qualquer foto ou vídeo da Torre com as luzes acesas equivale, legalmente, à reprodução de um trabalho artístico protegido. Para uso estritamente pessoal — uma recordação guardada no celular — não há problema. O risco surge quando a imagem é usada com fins comerciais ou profissionais, ou quando é publicada em redes sociais de forma que possa caracterizar distribuição.
A União Europeia reconhece o princípio da Liberdade de Panorama: uma disposição que permite fotografar e filmar obras arquitetônicas e esculturas permanentemente localizadas em espaços públicos, sem infringir direitos autorais. Em tese, isso protegeria o turista que clica a Torre à noite para guardar como lembrança.
No entanto, a aplicação dessa diretiva é opcional — e a França optou por não incorporá-la em sua legislação nacional. Já o Brasil adotou a diretiva por meio do art. 48 da Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98), que prevê que obras situadas permanentemente em logradouros públicos podem ser representadas livremente.
Mas, mesmo com tal exceção, o uso comercial pode gerar riscos se a exploração parecer menos uma fotografia do espaço público e mais uma apropriação econômica da própria obra.
A história de Gustave Eiffel é também uma história sobre criação, autoria e o tempo. Ele projetou uma obra que deveria durar 20 anos e que hoje atravessa séculos. Criou um símbolo que, após décadas de proteção legal, tornou-se patrimônio de toda a humanidade, exceto por um detalhe luminoso, instalado quase um século depois, que ainda carrega a assinatura de seus criadores.
Assim, a Torre Eiffel é, ao mesmo tempo, domínio público e obra protegida — livre durante o dia, reservada à noite. Uma metáfora quase poética para um monumento que reinventou-se para sobreviver.
Fonte: Artigo jurídico
Crédito da imagem: A Torre iluminada — Foto: JACKY NAEGELEN / Reuters
Responsável Técnico
Clarice Fernandes
